é a puta da vida, que um dia nos cala

15
Dez 18

João já te disse o casaco é este e com botas de borracha e chiu! Mãe, outra vez esse casaco com botões aos pauzinhos... Tu deixas é de ser esquisito, vestes o casaco e embora que estás atrasado. João Afonso esgotara as alternativas. Era de entre os três irmãos o que mais regateava as vestimentas que a mãe lhe apresentava, mas Júlia já possuía um mestrado de habilitações validado pela educação dos três rapazes. Redundante e sem deixar margens para dúvidas, habituara-se a contornar aquelas birras do filho do meio, que repetia frequentemente quanto à angústia do traquinas de cabelo liso castanho, franja esticada de corte arredondado mal amanhado feito pelo próprio pai e que mais lembrava um capacete penico que lhe tapava as orelhas. Certo era que o rapaz mostrava complexo de vestir aquelas roupas mais saloias não lhe basta-se já ter o estigma social de ser um Português em terras dos Pirenéus espanhóis.

Júlia Afonso era detentora de um intuito materno apurado e se havia coisa que não lhe faltava era a convicção de um suposto bom gosto abrilhantado por aquele toque algo refinado para a indumentária. Assim a vizinhança o confirmava, pois que eram frequentes os elogios que a mãe colhia entre pares pela apresentação esmerada dos miúdos, não obstante as dificuldades em cria-los sozinha o que não bastando, acrescentava-se ter ainda de sustentar o marido e aparar-lhe os golpes.

 

Adios! Resmungou João Afonso enquanto batia atrás de si a forte e pesada porta que também o próprio pai fizera. Jorge Silva é angolano, neto de um Português de Espinho que fora para colónia portuguesa e fizera fortuna no comércio do café e diamantes entre outros. Jorge tivera portanto berço, e tinha as típicas boas maneiras da alta sociedade de Luanda. Cuidava que tal berço se refletisse nos filhos e lá tinham de comer os miúdos, pelo menos quando o pai estava à mesa, de garfo e faca desde tenra idade, nem que a refeição fosse frango assado. Mas era também um rebelde parido de nascença. Filho do menino mulato da casa com a empregada preta como a ferrugem, um castanho tão escuro como o café torrado mas linda e com um brilho nos olhos maior que o dos diamantes que o patrão comercializava. Jorge é o primeiro, o mais velho dos pelo menos 13 filhos de cinco mulheres distintas que eram reconhecidos ao avô Ilídio. Autodidata por natureza, com a mesma habilidade que cortava o cabelo aos filhos, Jorge construia uma porta lá para casa, levantava uma parede em tijolo se preciso fosse ou reparava eletrodomésticos, esta que era a sua ocupação nas horas vagas, quando não se encontrava metido em confusão da grossa ou agarrado aos copos de bebida branca.

Já na rua, João Afonso tirou as perneiras das calças para fora das galochas pretas, descalçou as luvas que amarrotou para dentro dos bolsos do casaco impermeável caqui azul escuro com risca vermelha e branca, o seu preferido que andava sempre escondido na mochila para dias de emergência. Fez-se pela ladeira abaixo deixando para trás a Villa Namur em Pasai Antxo, povoação da periferia de San Sebastián, área dos subúrbios da cidade e que contava com 370 mil habitantes, daquela que era a capital da província espanhola de Guipúscoa situada na região autónoma do País Basco. Está no limite de fronteira do Noroeste de Espanha com a entrada oeste de França. A província Basca é a segunda mais poderosa economia do país, logo a seguir a de Madrid. Jorge Silva sabia-o, por isso para ali desertara de Portugal e fora embarcadiço nos primeiros tempos de San Sebastian cidade com alto movimento portuário. Por aquelas montanhas os dias eram brancos de neve naquele dezembro de 1982.

 

Espera João! Que também estou de saída, ouve o pequeno Afonso que voltou-se e lá vinha o companheiro das tropelias, Iñaki, de sete anos, mais um que João Afonso, também ele irmão do meio dos Iglesias, de Iker o mais velho, e Paloma a irmã mais nova por quem o coração do João palpitava.

Conho! Que teu adorado Luis Miguel Arconada deu-me ontem uma grande alegria. Mas que fífia aquele golo. Cô-coro-cô-cô! Cacareja Iñaki enquanto com os braços dobrados imita uma galinha a dar às assas. O pequeno chavalo não podia desperdiçar a oportunidade. Sabia como poucos da adoração que João Afonso nutria pelo guarda-redes da Selecção Espanhola, personalidade que era o orgulho do clube de futebol da cidade, o Real Sociedad. Luis Miguel Arconada, guarda-redes da equipa do campeonato espanhol que traja de azul e branco viria-se a tornar no maior ícone de sempre do Real Sociedad. De resto, Arconada era tão somente um nome que começava a ter tanto de sonante que se tornaria lendário no futebol mundial pela destreza entre postes, e conforme constataria o jovem João Afonso anos mais tarde. Já Iñaki era ferrenho adepto do clube da cidade portuaria vizinha de onde era oriunda a família, a capital da província de Biscaia com o seu clube rival o Atlético de Bilbao. Faziam os dois miúdos neste capítulo um curto circuito autêntico. Mandavam patanisca cheirava a queimado. Ostias, Iñaki! Gracias por el recuerdo, atirou Afonso de soslaio à provocação do Iglesias, prosseguindo, olha, já te disse que estamos a aprender o nome dos números nas aulas de euskera? Não, mas diz-me, o que sabes já tu em euskera? Já aprendi umas coisinhas, a contar até quatro por exemplo. João afina a garganta e emite os sons dos primeiros quatro algarismos do idioma nativo Basco: bat, bi, hiru, lau, e acrescenta, a la mierda el BILBAO! Joder João, que te den por culo, cabron de mierda que te agarro. Retira o que dizes! João corre, iñaki busca, atravessam desalmadamente a Plaza Central, saltando os primeiros bancos de madeira, fintando-se entre os anonimos que por alí passam indo à sua vida, com algumas paragens pelo meio para se abastecerem de bolas de neve a serem atiradas. Retira o que disseste, exigia Iñaki. A la mierda el Bilbao, devolvia João afonso - Bat, bi, hiru, lau. Acalmaram por fim com o estridente soar do sino da Igreja de San Firmin situada ali em plena praça. Batia a hora certa que é a mesma de entrada na escola logo alí ao lado. Já viste que ridículas estas batas, a dos parbulitos? Cala-te que ainda há poucos meses andavas com uma igual, devolveu-lhe Iñaki Iglesias, enquanto aguardavam pela passagem da fila dos alunos de parbulitos, as classes de pré-primária na escola espanhola.

 

por Paulo Jerónimo às 14:14
música: Genérico de «Dartañam e los tres mosqueperros»

14
Dez 18

João Afonso agita com força o isqueiro branco da Bic no ar. Roda-lhe a pedra e dá faisca mas continua a não sair lume. levanta o isqueiro a altura dos olhos e verifica-lhe o nível de gás no contra-luz da rua. Encontra-se no Hall de entrada da pastelaria Nova Falagueira na Amadora. O dia é solarengo, o primeiro em que o astro que comanda a vida espreita neste ano de dois mil e dezoito, uma aberta aos dias frios e húmidos como o são sempre todos os de janeiro, exceto, recorda, os primeiros doze que dizem os antigos, cada um desses variar no clima variação essa que corresponde à previsão de cada um dos meses seguintes do ano. Este dia de Reis era solarengo portanto, e confere, junho seria um mês normal. Larga a fumaça solta pelas narinas. Abotoa o casaco com frio e olha para o cão preso pela trela no poste em frente que avisa quem por ali passa que esta é uma zona com vídeo vigilância, para segurança das pessoas, bens e prevenção criminal, lê-se. A Amadora não é de facto uma cidade pacífica. O cão esse não tem frio. Um Serra da Estrela de pelo comprido, cor fulvo lobeiro, com o sangue quente, uma boa dose de camada de gordura no próprio couro cabeludo, e com o seu manto de pelo lustroso, procura sempre os pisos mais frios para se deitar ou fica a sombra, não fosse ele concebido para sobreviver a invernos inteiros ao relento em ambiente de temperaturas negativas da serra que lhe dá nome à raça.

Olha o Tarzan! Dispara uma voz do canto da avenida. Tarzan! Oh conas, não vês que ele está preso ao poste da polícia, retorquiu uma segunda voz. Eram três gaiatos. Eu bem te disse que ele era cão polícia. Os ciganitos na ordem dos seis, dez, e treze anos fazem festas ao Herói que agora se levantara. Olha, como é que se desata isto? Psst, está quieto, pensas que estas em casa? Interrompe João Afonso na sua pausa de cigarro à porta da pastelaria. Os ciganos viram-se para trás com cara de cu sem saber o que dizer ao homem mas o mais puto e reguila de todos não perde tempo. Ah senhori, este cãoé é meué. É teu? Desde quando? Esse cão é meu. E não se chama Tarzan, chama-se Herói. É meué é, que encontrei-o abandonado noutro dia, até o prendi no acampamento com um cordeli e tudo mas ele arrebentou-o e saltoué o muro, e olhe que o muro é mais alto que você! e fugiué.

Com que então foste tu! Bem o podia procurar toda a tarde e noite dentro. E tu com ele preso. Este cão é meu, não viste que tinha coleira? Fugiu-me, estávamos a passear e nunca mais o encontrava. Se mais alguma vez o virem sozinho pegam nele pela coleira e vão-me tocar à campainha no prédio alí atrás em frente ao supermercado. Entendido? Sim senhori. Mas podemos brincar com ele? Podem. Oh senhori, porquê ele está preso a este poste da polícia, ele é cão polícia, perguntou o mais velho. É, responde Afonso. E o senhori é polícia? Sou. Portanto cuidado! Vês, eu não vos disse que era cão polícia! Eu já o tinha visto uma vez numa rusga que fizeram ao acampamento!

João Afonso dá uma gargalhada com vontade. Mal sonham os ciganos que o Herói ainda nem tivera tempo para grandes rusgas na cidade de há tão poucos dias que ali chegará.

A história do João e do Herói é ainda muito curta, nem sequer tem ainda uma semana, mas o canídeo já domina o território. Herói é um cão nobre, possante de movimentos e atitude, de fazer alguns transeuntes mudar de passeio quando o avistam à distância. É ao mesmo tempo o cão mais doce e carente de mimo que João Afonso algum dia conhecera. Ao mínimo descuido, à menor das oportunidades, o Serra da Estrela fugia e passava tardes inteiras nas suas pesquisas de rua. Foi o que fizera ao dono dois dias antes, que o deixou desorientado toda a tarde e serão dentro, à procura dele pela cidade e que não o encontrava. Pudera, afinal por um cordel estava preso. Era já meia noite quando se preparava para deitar numa noite que já a imaginava em branco preocupado com o paradeiro do cão, quando, numa última e derradeira tentativa do dia volta para trás largando a maçaneta da porta do quarto. Calça as botas, pega no chapéu de chuva e nas chaves e desce as escadas do prédio. Última tentativa, última ronda do dia, se não aparecer amanhã logo se vê, há-de lhe dar a fome, sabe onde tem comida. Será? Absorto nos pensamento Afonso abre a porta de saída do prédio, da dois passos em direção ao carro, e, pasme-se, fica intacto com o chápeu de chuva em posição de quem ia ser aberto, mas que se foda a puta da chuva. Deus me valha! Héroi, cabrão! Isto faz-se? O Serra da Estrela levanta a cabeça, olha para João Afonso, deixa cai-la de novo no chão onde estava prostrado, ao lado da roda esquerda do carro de João Afonso, visivelmente combalido. João Afonso analisa-o, tem medo que tenha sido batido pelo sôfrego trânsito da cidade. Herói não se levanta nem quando para isso é mandado. Apalpa-lhe todo o corpo, parece-lhe bem. João ajoelha-se ao seu lado, abraça-o pelo pescoço, beija-o e chora. Já sabes quem é o dono, caralho.

O cão apodera-se do coração do João naquele instante, ao fim de quase uma semana de convívio, mas a história do Herói e Afonso era outra e bem mais antiga. E o cão não o sabia.

por Paulo Jerónimo às 15:06

09
Set 17

Paris, nove de setembro de dois mil e dezassete, 21h07, João Afonso desce a rua que lhe hão descrito como La Grand Avenue para chegar a Torre Eiffel.

Senhor, conhece Paris? Não, é a minha primeira vez em Paris. A expressão de frustração de Elie não se rende à segunda questão, E não viu por aí uma igreja onde me possa dirigir? Não. O Senhor é Católico? Não. Cristão? Sou agnóstico, a religião é das piores coisas que o homem podia inventar... Elie dá uma palmada a Afonso no ombro com relativa força. Não soube João se por reprovação ao que ouvira ou se pretendia expulsar algo de mau no nele. Como se chama? João Afonso. Muito prazer, chamo-me Elie, sou de Aleppo na Siria, Antropólogo e professor de filosofia. De onde vens? Portugal. Ah, Fátima! Elie Intaká abriu o segundo botão da camisa, retirou o seu amuleto de madeira, um crucifixo com a mensagem pregada na cruz em árabe. Eu sou devoto de Fátima. E eu vivo a quatorze quilómetros de Fátima. Então como podes dizer que a religião é a pior coisa que o homem já inventou? Porque já sofri a minha quota parte por ela, porque provavelmente o senhor está a sofrer muito por ela, pelas guerras dela. Elie comove-se tremendamente, os seus olhos vivos que até ali queriam transmitir algo ficam baços. Se alguém lhe provasse das lágrimas que não consegue agora conter, imagina-se que seriam mais amargas do que as águas salgadas e agitadas que já terá atravessado até se cruzar com João Afonso, na Grand Avenue. Mas como podes tu ignorar Deus? Por Deus eu cheguei aqui, estou aqui a falar contigo. Eu não ignoro Deus, apenas deixei de me questionar o que ele quer de mim e de me permitir a que a sua vontade condicionasse a minha vida, porque isso não é ser Deus, condicionar os seus súbditos de forma tão cruel ao ponto de se acreditar que lhe devemos sacrifícios, ou a vida... eu não posso venerar um deus como o do velho testamento, que cometeu tantas atrocidades, tantas mortes, tanto sofrimento nos humanos. Só porque sim, porque quero, posso e mando. Esse não pode ser o meu deus com Dê grande, Quem é então esse teu Deus, que dizes que não ignoras? Deus para para mim não é uma preocupação, se existe ou não existe, se em corpo ou forma, espírito ou visível, se tem planos para nós ou não, isso não deve ser da minha preocupação. Eu vejo Deus nesta árvore que aqui cresce ao nosso lado, sinto Deus no frio da brisa que nos regela agora a cara, na força das tempestades que assolam os Estados Unidos, nos olhos da minha filha quando se decepciona comigo. Deus é toda a natureza que me envolve, e ela trata de me equilibrar, sem me pedir nada em troca, e por isso lhe sou grato, à Mãe Natureza, se quiseres, o meu Deus. Elie já não queria chorar, sorria, abraçou-se a João Afonso, beijou-lhe a testa e se afastou. Afonso queria deixá-lo partir, e pensou que Elie de facto queria partir, pelos hesitantes passos que deu, mas avançou de novo para João Afonso e pôs a mão direita no seu próprio peito esquerdo, e com os olhos novamente cheios de amargura o sírio voltou-o a indagar, Vou-te pedir um favor que nunca pensei vir a necessitar de pedir, o meu filho só me consegue fazer chegar dinheiro pela Western Union daqui por dois dias, e hoje tenho uma etapa fundamental , e que me aflige, porque todo o meu futuro depende de eu chegar a tempo, até amanhã a tarde a um amigo que me aguarda muito longe daqui, preciso de 52€ para o bilhete do comboio que me levará, e não tenho dinheiro para comer ou onde dormir há dois dias. Por isso procuro uma igreja e não a encontro, mas encontrei-te a ti, suplico-te, ajuda-me. Neste momento já choravam os dois e com voz embargada o português lhe explica, Não tenho esse dinheiro comigo, queria muito te ajudar, mas o que tenho no bolso é para as refeições dos próximos dois dias aqui em Paris e já é menos do que esperava, Quanto me podes dar? Vinte euros. Obrigado, respondeu Elie estendendo a mão. Afonso meteu a mão ao bolso donde lhe saiu um monte de cartões, recibos e algumas notas dobradas com a de vinte a cobrilas. Ao desdobra-la para lha dar aparecem as restantes de cinco euros num montinho generoso, Elie abana a mão e súplica por mais, os seus olhos fazem João Afonso esquecer tudo no momento e desdobra as restantes depositado-as na palma da sua mão, Vinte e cinco, trinta, trinta e cinco, quarenta, é tudo o que tenho Elie, e ficarei sem dinheiro para comer, mas tu ficarias pior sem ele, eu ca me arranjo. Mas Elie insiste, sem pronunciar uma só palavra, um só gemido, uma sequer expressão, abana a mão com firmeza e aquela mão lhe diz, Mais. No desespero da situação quando lhe ia a dizer e mostrar que, Elie, não tenho mais , de repente ao folhear os recibos e cartões que tinha ainda na mão aparecem mais algumas notas de cinco com que não contava e para estranha surpresa de João, mas não da de Elie. Quarenta e cinco, cinquenta, Quanto disseste que precisavas? Cinquenta e dois, depositou-lhe na mão estendida a última nota que tinha, Cinquenta e cinco. Elie deu dois passos atrás, uniu as duas mãos com o dinheiro ainda no meio delas elevo-as entre o queixo e o nariz em sinal de prece, e de cabeça inclinada para o céu soltou umas palavras incompreensiveis. Arrumou o dinheiro, e dirigiu-se a João Afonso abraçando-o de forma apertada enquanto lhe dizia, Deus te recompensará em dobro. Não te esqueças de mim, Elie intaká professor de filosofia, Aleppo. O portugês confirma-lhe que não o esquecerá, mas interrompe-o, Espera, quero uma recordação tua, uma foto, pode ser? E algo teu que possa trazer comigo. Como assim contigo? Um objeto, uma simples mensagem escrita num papel, o que queiras. Okay, assim terás.

O sírio ficou parado a olhar para João Afonso enquanto eu ele se afastava, soube disso porque depois de alguns passos desde que o deixará, João Afonso se havia voltado procurando saber a direção que o outro tomaria. Estava lá, no mesmo sítio com mão estática no ar despedindo-se, sorriu e Afonso devolveu-lhe um adeus e prosseguiu.

João Afonso dobrou a esquina com um turbilhão de emoções pois que não se entendia. O que fora aquilo, como é possível, que sorte será a deste homem? E lá estava ela, a grandiosidade de Eiffel. À volta ouviam-se falar demasiadas línguas, uma verdadeira Torre de Babel, que reza a história um dia deus a impediria, na tamanha ousadia dos homens quererem fazer uma torre que toca-se os céus, e confundido-lhes a língua, aos trabalhadores, deus vetou-lhes o feito. Parou obliquamente na direção dela. Acendeu o cigarro do momento, pois que se fumar mata, ao menos que cada cigarro seja uma vitória, uma contemplação, um celebrar da vida. Aquele era o da celebração de João Afonso a Elie. Durante dois minutos, permanece de pescoço torcido para o ar, não porque dê jeito aos pulmões para expulsar o veneno, mas para apreciar a crueza da obra, ferro puro, minerio velho, escória da mãe terra, e que um deus da engenharia soube conjugar. E assombra-lhe agora ao pensamento, Como pode a humanidade ser capaz de coisas tão grandiosas na mesma medida em que pratica as mais asquerosas? Apagou a beata na calçada de Paris.

por Paulo Jerónimo às 00:47

01
Nov 09

Um de novembro de dois mil e nove. João Afonso desliga o televisor, enfadado. Lá fora a borranha teima em cair e João Afonso sorri, o tempo já não é  o que era, mas dias como este têm o seu quê de gostoso, frescos e com chuva miudinha a acompanhar, convida a ficar em casa, meditar.

Perdido em pensamentos, depressa sua veia mais sonhadora o transporta para tempos invernios mais longínquos, tempos  dos seus dias de inocência, já idos, para os pedidos que ao divino fazia para a chuva voltar ou acabar, conforme mais lhe conviesse ficar ou sair de casa. Certo é que em tais tempos idos aquela chuva-molha-tolos mais facilmente coincidiria com um pedido de oração. Agora, a chuva era um bem  escasso e orações eram caso de pouca fé. A campainha interrompe-o regressa à realidade. Pão por Deus! Anunciam do lado de lá enquanto João Afonso roda as trancas à porta, e ao abri-la, pasma-se, com três rapazolas mal enjorcados. 

Quê que andam ainda a fazer por aqui, a estas horas? Ao Pão por Deus, quê que havia de ser? Tens? O puto da frente, desfraldado mas diligentemente bem penteado esticou-lhe uma saca de pano grená. João Afonso apercebendo-se do conteúdo pigarreia, eh lá! Vens bem aviado, posso provar um bolinho desses? Deixa-te de cenas, tens Pão por Deus ou não? Pá, sabes como é isto da crise... Não ouviste ontem o Sócrates? Um euro a cada um ainda que talvez se arranje. Então dá cá e não inventes, devolveu-lhe o petiz de sorriso contido entredentes. Obrigadinha!  Atira o outro rapaz no fundo do patamar já na pose da oferenda enquanto oterceiro já tocavam na campainha do apartamento ao lado. Ficou ainda por instantes encostado à ombreira da porta a aprecia-los, enquanto regateavam a divisão dos cinco euros em moedas que lhes havia dado. Mas logo pensou ser melhor voltar para dentro, não fossem os diabinhos tece-las e, ao aperceberem-se pelos caculos bicudos,  reclamarem por uma conta mais certa de dividir por três. 

De volta ao sossego da sala, dá com os olhos no computador portátil pousado no sofá. Hávido que era por tirar aquele tipo de dúvidas instantâneas, senta-se pousando-o em cima das pernas. Queria pesquisar sobre aquela caricata tradição levada a cabo por miúdos e outros mais graúdos, nos dias envoltos ao "feriado de todos os santos". Nunca havia praticado aquele ritual, crescera entre outros credos religiosos, e aos trinta e quatro anos de idade era a primeira vez que havia feito tal oferta. Sempre que abria a página da wikipédia, como era agora o caso, lembrava-se do conselho de um amigo, de que se tratava de "coisa para turista consultar", remetendo assim o tal amigo "franciu" narigudo no alto de suas conviçoes e não se trata-se o mesmo de um professor da prestigiada faculdade de ciencias politicas de Versalhes habituado portanto a ferramentas e fontes mais credíveis.  Tal plataforma de edição livre, a " wikicoisa", como lhe chamava o amigo era para João Afonso a primeira maravilha da web, à qual se seguia o youtube. A primeira revelação da pesquisa: que ao contraio do que João supunha , o Dia de todos os Santos" antecedia o Dia de Finados. Afinal não eram o mesmo dia conforme pensava na sua ignorância induzido em erro pelas romarias ao cemitério do dia um, feriado religioso. Nunca venerara ou velará qualquer morto, mesmo que ente-querido. Pelo que verificado que afinal o dia dos fiéis defuntos correspondia ao 2 de novembro, decidira que era chegada a hora de pensar em visitar a campa de um familiar perdido há alguns anos e que tinha por referência. 

 

Voltou a ligar o televisor, o Porto ganhava, um a zero. Nem queria acreditar que se esquecera do jogo, mas do mal o menos que naquela época a lavareda do dragão andava um tanto ao quanto abafada. Iam três jornadas sem vitórias, e os tripeiros continuavam a perder terreno para os outros dois rivais que completam o trio dos três grandes, os eternos candiatos ao título, Benfica, Sporting e Porto.

João afonso remexe-se no sofá, incomodado, qualquer coisa alí augura. O adversário acaba por empatar a partida e tal como o dia, a esperança fora sol de pouca dura. Desligou o televisor, enfadado. Valia-lhe que na noite de véspera que fora a do halloween, o Benfica conhecera uma verdadeira noite das bruxas, em Braga. À oitava jornada os rivais de sempre, em tempo das mais altas afrontas duma coisa chamada Apito Dourado, o campeonato estava acesso, o Futebol Clube do Porto ainda acusava, e bem, esta cacetada a partir de Lisboa e que lhe havia cortado as pernas,  vale que João afonso teria o seu trunfo na manga para a conversa de cafe no dia seguinte, pois que os encarnados perderam. Provavam assim pela primeira vez daquela época o agridoce sabor da derrota imposta num pico de euforia que o país desportivamente já vivia. Apagou a luz, consolado. Amanhã era 2ª  feira. Amanhã era um outro dia.

por Paulo Jerónimo às 00:14
música: Tim Maia & Gal Costa - Um dia de domingo

26
Ago 75

Para onde eu vou, o quê é  que eu faço? apertou o laço. Quantas vezes te riste, imprimiste o teu cunho? Esticou a camisa, abotoou o punho. Foste livre de consciência nas encruzilhadas da vida?Continuas a ser o mesmo ainda que o espelho não to diga. Compôs o cabelo, verificou o fato. Endireitou o vinco,  atou o sapato. Virou costas, sai porta fora: Podes contornar meio mundo, mas não os valores  de outrora. Porque um dia regressas e então constatas: aqui estou eu vestido de gala. É a puta da vida, que um dia nos cala.

  

por Paulo Jerónimo às 06:21
música: Mark Knofler - Going home (theme fron Local Hero)

 

por Paulo Jerónimo às 06:20
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