é a puta da vida, que um dia nos cala

15
Dez 18

João já te disse o casaco é este e com botas de borracha e chiu! Mãe, outra vez esse casaco com botões aos pauzinhos... Tu deixas é de ser esquisito, vestes o casaco e embora que estás atrasado. João Afonso esgotara as alternativas. Era de entre os três irmãos o que mais regateava as vestimentas que a mãe lhe apresentava, mas Júlia já possuía um mestrado de habilitações validado pela educação dos três rapazes. Redundante e sem deixar margens para dúvidas, habituara-se a contornar aquelas birras do filho do meio, que repetia frequentemente quanto à angústia do traquinas de cabelo liso castanho, franja esticada de corte arredondado mal amanhado feito pelo próprio pai e que mais lembrava um capacete penico que lhe tapava as orelhas. Certo era que o rapaz mostrava complexo de vestir aquelas roupas mais saloias não lhe basta-se já ter o estigma social de ser um Português em terras dos Pirenéus espanhóis.

Júlia Afonso era detentora de um intuito materno apurado e se havia coisa que não lhe faltava era a convicção de um suposto bom gosto abrilhantado por aquele toque algo refinado para a indumentária. Assim a vizinhança o confirmava, pois que eram frequentes os elogios que a mãe colhia entre pares pela apresentação esmerada dos miúdos, não obstante as dificuldades em cria-los sozinha o que não bastando, acrescentava-se ter ainda de sustentar o marido e aparar-lhe os golpes.

 

Adios! Resmungou João Afonso enquanto batia atrás de si a forte e pesada porta que também o próprio pai fizera. Jorge Silva é angolano, neto de um Português de Espinho que fora para colónia portuguesa e fizera fortuna no comércio do café e diamantes entre outros. Jorge tivera portanto berço, e tinha as típicas boas maneiras da alta sociedade de Luanda. Cuidava que tal berço se refletisse nos filhos e lá tinham de comer os miúdos, pelo menos quando o pai estava à mesa, de garfo e faca desde tenra idade, nem que a refeição fosse frango assado. Mas era também um rebelde parido de nascença. Filho do menino mulato da casa com a empregada preta como a ferrugem, um castanho tão escuro como o café torrado mas linda e com um brilho nos olhos maior que o dos diamantes que o patrão comercializava. Jorge é o primeiro, o mais velho dos pelo menos 13 filhos de cinco mulheres distintas que eram reconhecidos ao avô Ilídio. Autodidata por natureza, com a mesma habilidade que cortava o cabelo aos filhos, Jorge construia uma porta lá para casa, levantava uma parede em tijolo se preciso fosse ou reparava eletrodomésticos, esta que era a sua ocupação nas horas vagas, quando não se encontrava metido em confusão da grossa ou agarrado aos copos de bebida branca.

Já na rua, João Afonso tirou as perneiras das calças para fora das galochas pretas, descalçou as luvas que amarrotou para dentro dos bolsos do casaco impermeável caqui azul escuro com risca vermelha e branca, o seu preferido que andava sempre escondido na mochila para dias de emergência. Fez-se pela ladeira abaixo deixando para trás a Villa Namur em Pasai Antxo, povoação da periferia de San Sebastián, área dos subúrbios da cidade e que contava com 370 mil habitantes, daquela que era a capital da província espanhola de Guipúscoa situada na região autónoma do País Basco. Está no limite de fronteira do Noroeste de Espanha com a entrada oeste de França. A província Basca é a segunda mais poderosa economia do país, logo a seguir a de Madrid. Jorge Silva sabia-o, por isso para ali desertara de Portugal e fora embarcadiço nos primeiros tempos de San Sebastian cidade com alto movimento portuário. Por aquelas montanhas os dias eram brancos de neve naquele dezembro de 1982.

 

Espera João! Que também estou de saída, ouve o pequeno Afonso que voltou-se e lá vinha o companheiro das tropelias, Iñaki, de sete anos, mais um que João Afonso, também ele irmão do meio dos Iglesias, de Iker o mais velho, e Paloma a irmã mais nova por quem o coração do João palpitava.

Conho! Que teu adorado Luis Miguel Arconada deu-me ontem uma grande alegria. Mas que fífia aquele golo. Cô-coro-cô-cô! Cacareja Iñaki enquanto com os braços dobrados imita uma galinha a dar às assas. O pequeno chavalo não podia desperdiçar a oportunidade. Sabia como poucos da adoração que João Afonso nutria pelo guarda-redes da Selecção Espanhola, personalidade que era o orgulho do clube de futebol da cidade, o Real Sociedad. Luis Miguel Arconada, guarda-redes da equipa do campeonato espanhol que traja de azul e branco viria-se a tornar no maior ícone de sempre do Real Sociedad. De resto, Arconada era tão somente um nome que começava a ter tanto de sonante que se tornaria lendário no futebol mundial pela destreza entre postes, e conforme constataria o jovem João Afonso anos mais tarde. Já Iñaki era ferrenho adepto do clube da cidade portuaria vizinha de onde era oriunda a família, a capital da província de Biscaia com o seu clube rival o Atlético de Bilbao. Faziam os dois miúdos neste capítulo um curto circuito autêntico. Mandavam patanisca cheirava a queimado. Ostias, Iñaki! Gracias por el recuerdo, atirou Afonso de soslaio à provocação do Iglesias, prosseguindo, olha, já te disse que estamos a aprender o nome dos números nas aulas de euskera? Não, mas diz-me, o que sabes já tu em euskera? Já aprendi umas coisinhas, a contar até quatro por exemplo. João afina a garganta e emite os sons dos primeiros quatro algarismos do idioma nativo Basco: bat, bi, hiru, lau, e acrescenta, a la mierda el BILBAO! Joder João, que te den por culo, cabron de mierda que te agarro. Retira o que dizes! João corre, iñaki busca, atravessam desalmadamente a Plaza Central, saltando os primeiros bancos de madeira, fintando-se entre os anonimos que por alí passam indo à sua vida, com algumas paragens pelo meio para se abastecerem de bolas de neve a serem atiradas. Retira o que disseste, exigia Iñaki. A la mierda el Bilbao, devolvia João afonso - Bat, bi, hiru, lau. Acalmaram por fim com o estridente soar do sino da Igreja de San Firmin situada ali em plena praça. Batia a hora certa que é a mesma de entrada na escola logo alí ao lado. Já viste que ridículas estas batas, a dos parbulitos? Cala-te que ainda há poucos meses andavas com uma igual, devolveu-lhe Iñaki Iglesias, enquanto aguardavam pela passagem da fila dos alunos de parbulitos, as classes de pré-primária na escola espanhola.

 

por Paulo Jerónimo às 14:14
música: Genérico de «Dartañam e los tres mosqueperros»

Sobre o autor
pesquisar
 
blogs SAPO