é a puta da vida, que um dia nos cala

01
Nov 09

Um de novembro de dois mil e nove. João Afonso desliga o televisor, enfadado. Lá fora a borranha teima em cair e João Afonso sorri, o tempo já não é  o que era, mas dias como este têm o seu quê de gostoso, frescos e com chuva miudinha a acompanhar, convida a ficar em casa, meditar.

Perdido em pensamentos, depressa sua veia mais sonhadora o transporta para tempos invernios mais longínquos, tempos  dos seus dias de inocência, já idos, para os pedidos que ao divino fazia para a chuva voltar ou acabar, conforme mais lhe conviesse ficar ou sair de casa. Certo é que em tais tempos idos aquela chuva-molha-tolos mais facilmente coincidiria com um pedido de oração. Agora, a chuva era um bem  escasso e orações eram caso de pouca fé. A campainha interrompe-o regressa à realidade. Pão por Deus! Anunciam do lado de lá enquanto João Afonso roda as trancas à porta, e ao abri-la, pasma-se, com três rapazolas mal enjorcados. 

Quê que andam ainda a fazer por aqui, a estas horas? Ao Pão por Deus, quê que havia de ser? Tens? O puto da frente, desfraldado mas diligentemente bem penteado esticou-lhe uma saca de pano grená. João Afonso apercebendo-se do conteúdo pigarreia, eh lá! Vens bem aviado, posso provar um bolinho desses? Deixa-te de cenas, tens Pão por Deus ou não? Pá, sabes como é isto da crise... Não ouviste ontem o Sócrates? Um euro a cada um ainda que talvez se arranje. Então dá cá e não inventes, devolveu-lhe o petiz de sorriso contido entredentes. Obrigadinha!  Atira o outro rapaz no fundo do patamar já na pose da oferenda enquanto oterceiro já tocavam na campainha do apartamento ao lado. Ficou ainda por instantes encostado à ombreira da porta a aprecia-los, enquanto regateavam a divisão dos cinco euros em moedas que lhes havia dado. Mas logo pensou ser melhor voltar para dentro, não fossem os diabinhos tece-las e, ao aperceberem-se pelos caculos bicudos,  reclamarem por uma conta mais certa de dividir por três. 

De volta ao sossego da sala, dá com os olhos no computador portátil pousado no sofá. Hávido que era por tirar aquele tipo de dúvidas instantâneas, senta-se pousando-o em cima das pernas. Queria pesquisar sobre aquela caricata tradição levada a cabo por miúdos e outros mais graúdos, nos dias envoltos ao "feriado de todos os santos". Nunca havia praticado aquele ritual, crescera entre outros credos religiosos, e aos trinta e quatro anos de idade era a primeira vez que havia feito tal oferta. Sempre que abria a página da wikipédia, como era agora o caso, lembrava-se do conselho de um amigo, de que se tratava de "coisa para turista consultar", remetendo assim o tal amigo "franciu" narigudo no alto de suas conviçoes e não se trata-se o mesmo de um professor da prestigiada faculdade de ciencias politicas de Versalhes habituado portanto a ferramentas e fontes mais credíveis.  Tal plataforma de edição livre, a " wikicoisa", como lhe chamava o amigo era para João Afonso a primeira maravilha da web, à qual se seguia o youtube. A primeira revelação da pesquisa: que ao contraio do que João supunha , o Dia de todos os Santos" antecedia o Dia de Finados. Afinal não eram o mesmo dia conforme pensava na sua ignorância induzido em erro pelas romarias ao cemitério do dia um, feriado religioso. Nunca venerara ou velará qualquer morto, mesmo que ente-querido. Pelo que verificado que afinal o dia dos fiéis defuntos correspondia ao 2 de novembro, decidira que era chegada a hora de pensar em visitar a campa de um familiar perdido há alguns anos e que tinha por referência. 

 

Voltou a ligar o televisor, o Porto ganhava, um a zero. Nem queria acreditar que se esquecera do jogo, mas do mal o menos que naquela época a lavareda do dragão andava um tanto ao quanto abafada. Iam três jornadas sem vitórias, e os tripeiros continuavam a perder terreno para os outros dois rivais que completam o trio dos três grandes, os eternos candiatos ao título, Benfica, Sporting e Porto.

João afonso remexe-se no sofá, incomodado, qualquer coisa alí augura. O adversário acaba por empatar a partida e tal como o dia, a esperança fora sol de pouca dura. Desligou o televisor, enfadado. Valia-lhe que na noite de véspera que fora a do halloween, o Benfica conhecera uma verdadeira noite das bruxas, em Braga. À oitava jornada os rivais de sempre, em tempo das mais altas afrontas duma coisa chamada Apito Dourado, o campeonato estava acesso, o Futebol Clube do Porto ainda acusava, e bem, esta cacetada a partir de Lisboa e que lhe havia cortado as pernas,  vale que João afonso teria o seu trunfo na manga para a conversa de cafe no dia seguinte, pois que os encarnados perderam. Provavam assim pela primeira vez daquela época o agridoce sabor da derrota imposta num pico de euforia que o país desportivamente já vivia. Apagou a luz, consolado. Amanhã era 2ª  feira. Amanhã era um outro dia.

por Paulo Jerónimo às 00:14
música: Tim Maia & Gal Costa - Um dia de domingo

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